Um aperto no coração

Tavira - Abril 2007


...palavra de honra que deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito.
*

*
António Lobo Antunes




...e naquele segundo eu só quis desaparecer, ainda que por instantes. parar o mundo, para que não me sentisse tonta com as suas voltas. o chão escorregou debaixo dos meus pés e de mim escorreram todas as forças. voltei a ver no espelho a menina que chorava sozinha, com medo de ser descoberta. No lado esquerdo do meu peito senti um aperto que, aos poucos, se tornou num peso que não sei se consigo levantar. por muitas lágrimas que chovam, existem dores impossíveis de apagar.



The Greatest

Ainda na ressaca de My Blueberry Nights, e confirmando que este filme nos vai conquistando aos poucos, pelos pequenos detalhes como a banda sonora, aqui fica uma das músicas que não consigo parar de ouvir. Repeat, repeat, repeat...


The Greatest - Cat Power

Once I wanted to be the greatest
No wind or waterfall could stall me
And then came the rush of the flood
Stars of night turned deep to dust

Melt me down
Into big black armour
Leave no trace of grace
Just in your honor
Lower me down
To culprit south
Make 'em wash
The space in town
For the lead and the dregs
Of my bed i've been sleepin'
Lower me down
Pin me in
Secure the grounds
For the later parade

Once I wanted to be the greatest
Two fists of solid rock
With brains that could explain
Any feeling
Lower me down
Pin me in
Secure the grounds
For the lead and the dregs of my bed
I was sleepin'
For the later parade

Once I wanted to be the greatest
No wind or waterfall could stall me
And then came the rush of the flood
Stars of night turned deep to dust

My Blueberry Nights


E, quando tudo parecia estar perdido, surge um convite irrecusável para assistir à sessão de abertura do IndieLisboa 2008. Subitamente acendeu-se a luzinha de esperança de ver em primeira mão o novo filme de Wong Kar Wai. Depois das últimas obras a expectativa era elevada e pode dizer-se que, apesar de ficar aquém do esperado, não deixa de ser um filme cativante. Daqueles que, para quem espera uma obra de cinema, começa por deixar um sabor amargo que, com o amadurecer das imagens, vai adocicando. Não será daqueles filmes pelos quais nos rendemos à primeira vista mas que, pelo contrário, nos vai conquistando nos pequenos detalhes.

Resumindo, acabei por me render. Não há aqui a magia de In the Mood for Love ou 2046 mas existem muitas marcas que nos lembram esses universos. As luzes, a cor, os toques quase milimétricos da banda sonora, cada cena desenhada como única. Para além do destaque, demasiado óbvio, para o Jude Law (ai, ai, ai...), não posso deixar de referir a brilhante interpretação da Rachel Weisz…não há palavras para esta mulher. Consegue sempre seduzir-me com aquela postura delicada, preenchida por um fogo que transparece a cada gesto. Está definitivamente no topo da minha lista!

Confesso que ia de pé atrás por causa da Norah Jones (desculpem-me mas não dava nada pela senhora como actriz…) mas acabei por me deixar levar. Não tanto por ela mas mais pela personagem. É difícil não estabelecer pontes, não me sentir também aquela Blueberry Pie deixada intacta no final de cada noite. Não que a tarte seja má de todo, mas parece que as outras, sendo mais populares, saltam mais à vista e acabam por ser sempre preferidas. Talvez porque ainda não surgiu a pessoa com o paladar suficientemente apurado para lhe descobrir as qualidades. É impossível não sentir a vontade de seguir viagem numa redescoberta de mim mesma, de partir em busca de outras personagens que também foram deixadas para trás.

Na minha mente ficou uma frase:

“It took me nearly a year to get here.
It wasn't so hard to cross that street after all, it all depends on who's waiting for you on the other side.”

…não sei quanto tempo levará, mas sei que será sempre mais fácil percorrer o caminho que nos leva ao outro lado da estrada quando soubermos quem temos à nossa espera.


p.s.: Thanks
:)

Fingir que está tudo bem


fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.


José Luís Peixoto in A criança em ruínas


...fingir que está tudo bem. que a dor não existe ou é apenas um desconforto. que as dúvidas não importam e que as respostas me chegam. que desconheço o peso das palavras e não sinto o vazio do silêncio. fingir que está tudo bem: que lá fora está alguém e que não há solidão. que me chegam os abraços e não existe medo. por dentro um fogo que não se extingue mas que não se pode deixar ver. um grito ensurdecedor que se torna mudo. e ter de sorrir todos os dias: como um calor que nos gela ou um vazio que nos abraça. ou sufoca.

Palavras para um nome

Como sempre, chovia. Ela estava sentada à janela. Olhava para o mundo lá fora em busca de algo que lhe chamasse a atenção. Era um daqueles dias difíceis em que lhe apetecia isolar-se à espera que o tempo passasse. Sabia que tinha de sair nessa noite e voltar a fingir que estava bem. Procurava dentro de si motivos suficientes para conseguir forçar o sorriso que os outros lhe exigiam…talvez apenas como forma de se sentirem menos culpados. Foi nessa altura que, do lado de fora da janela, apareceu uma mensagem que lhe provava que o conforto nem sempre chega na forma de abraço. Por vezes vem sob a forma de palavras soltas por alguém distante.

Desde então não voltou a fechar a janela. Aos poucos foi entrando uma poeira que foi polvilhando o seu mundo. Como uma neve seca. Formava uma espécie de atrito que por um lado não a deixava cair e, por outro, lhe permitia seguir em frente. Dia após dia essa fina camada foi ganhando forma. Dos pequenos grãos transportados pelo vento foi-se formando uma península, um mundo à parte, que um dia acabou por se soltar, sob a forma de ilha à deriva no mar.

Nessa ilha encantada habitam apenas dois seres desconhecidos que se deixam encantar ao sabor das marés, ao som dum idioma que criaram e que lhes permite longas noites de conversa ao luar. Este é um espaço em que o tempo passa a correr e onde chove todas as noites…talvez seja uma forma de lhes lavar as almas. Ou de lhes mostrar que existem emoções que não se conseguem travar.

A cada nova viagem que fazem pela ilha descobrem novos trilhos que levam às ilusões por viver. Encontram novos enigmas e novas formas de se abrigarem. Ao voltarem a casa sabem que a ilha é real…que existe de verdade! Não só porque têm areia nos sapatos, mas porque trazem ainda na pele o calor dos corpos. Nas suas mãos sentem ainda cada uma das texturas e as suas bocas saboreiam as descobertas.

Entre cada viagem ela pergunta-se várias vezes se a ilha ainda lá estará, no local onde a deixaram, e se serão capazes de lhe traçar as coordenadas para a voltarem a encontrar. Terá ganho novas formas e partido à deriva para locais mais quentes? Será que agora que o Verão se aproxima, e a chuva deixará de cair, a ilha irá desaparecer? O medo de lhe perder o Norte invade-lhe a alma. Procura um nome para lhe dar, que torne mais fácil encontra-la no oceano…mas o idioma que criaram não conhece palavras que cheguem para a nomear.

Talvez um dia encontre uma palavra perfeita para descrever esse local. Esse sitio onde consegue esquecer que existe um mundo cá fora, onde é capaz de voltar a voar e de onde volta sempre com um sorriso que não quer voltar a apagar. Dizem-lhe que tem um nome...mas parece-lhe tão pequeno para algo tão grandioso.

O mensageiro


Há prendas fantásticas ;)

Um destes dias ofereceram-me um búzio. Mas não, não é um búzio qualquer! Este tem mais anos que a minha família toda junta. Traz no seu interior vestígios de areia, dos tempos em que era um búzio activo e andava a passear pelas praias da outra margem. Mas a característica de que mais gosto é o facto de ser muito pequenino. Diz a lenda que, quanto mais pequeno o búzio, mais sons consegue guardar. Sim, porque os búzios são uma espécie de recipiente. Vão captando as informações e, se os encostarmos ao ouvido (com cuidado não vá ele perder-se lá para dentro…), conseguimos ouvir cada detalhe que foram recolhendo. Ora, como eu estava a dizer, sendo o meu bem pequenito, escusado será dizer que tem espaço para mensagens que nunca mais acaba!

Agora imaginem que têm alguém especial a quem não são capazes de dizer uma coisa muito importante – coisa comum por estes lados. Se tiverem um búzio como o meu podem segredar-lhe a mensagem, garantindo assim que esta chegue ao destino. A grande questão é que a mensagem não se vai ouvir enquanto o recipiente não estiver cheio e a transbordar mas...como coisas importantes para dizer não me faltam, este não será o problema!

Uma sombra

Sonhamos alto. Deixamo-nos levar pelas ilusões. Damos tudo o que temos e perdemo-nos, sem olhar para trás. Fazemos planos até um para sempre e colocamos as expectativas muito acima da altura a que conseguimos chegar. Mergulhamos nessa ideia, nessa ínfima possibilidade, nessa ilusão de ser diferente ou especial. Sem medos. E um dia provam-nos o contrário. Afinal a estrada acaba aqui. Depois da curva não há mais nada. Fica na boca o sabor a ferida aberta, que não sara. Na pele a memória de cada golpe.


Ao invés do caminho ascendente, que se percorre lentamente a cada passo, como uma casa que construímos cautelosamente, tijolo a tijolo, no caminho de regresso tudo é muito rápido. Basta um descuido para desmoronar a sólida parede que havíamos construído. Um simples machado, tão pequeno, é o que basta para deitar por terra a árvore que cresceu sem (quase) darmos conta. No espaço de segundos, uma tempestade inesperada (?) leva-nos tudo o que dávamos como seguro. Fica um vazio, uma incapacidade de resposta. Ficamos incrédulos. No meio das ilusões nunca houve espaço que chegasse para o dia em que estas seriam levadas pelo vento.


E quando pensamos que o pior já passou, olhamos em volta e vemos os destroços. Não há meio de conseguirmos tirá-los do caminho. Lembramo-nos que nunca nada voltará a ser como dantes. Nunca aquela casa voltará a ter a mesma forma. Mal conseguimos lembrar-nos de como era antes…quando se erguia à nossa frente. Temos as fotografias, as memórias, mas olhamos as peças que restaram e não conseguimos dar-lhes um formato. Muitas das figuras que a habitavam desapareceram também. Pelo menos as principais. Também estas nunca serão as mesmas.


Sei que sempre achei essa árvore especial, sempre acreditei que tinha uma sombra melhor.
Lá do topo podia ver todo o mundo, não haviam limites. Dediquei-lhe todos os dias, mesmo quando não se via que estava a crescer. Construí cada detalhe dessa casa, para que fosse somente nossa. Cada janela com a vista que idealizava. Mas agora vivo desabrigada dessas paredes que me protegiam, à procura de uma sombra para me estender nos dias de sol. Se um dia chegarem…


p.s.: Ouvir esta música traz-me sempre de volta a esta espécie de planície polvilhada de destroços.



To Build A Home - The Cinematic Orchestra

"Cause, I built a home
for you
for me
Until it disappeared
from me
from you

And now, it's time to leave and turn to dust..."


Young Love

Já há uns dias que fui contagiada por esta música dos Mystery Jets...

if i only knew your name i'd go from door to door
searching all the crowded streets for the face that i once saw
if i only knew your name i'd go from door to door
tell me have you seen the boy i met just once before?