37°31'28.1"N 8°47'13.5"W


Não conseguiu precisar quantos anos passaram desde a última vez. Pelo menos uma dúzia. Seguramente demasiado tempo para um sítio que lhe ocupa tanto espaço no coração. Ou talvez o tempo necessário para que tivesse coragem de regressar. Não apenas à aridez das ruas, e ao som do mar. Mas principalmente às memórias que até agora não lhe permitiam rumar a esta terra. Abrir as caixas de recordações - que insiste em não deitar fora - é reecontrar-se com imagens há muito esquecidas. De quando travava outras lutas e acreditava noutro futuro. De quando vivia cheia de sonhos mas também com muitas mágoas que os anos acabaram por atenuar. É-lhe dificil resistir ao clássico soubesse eu o que sei hoje, mas também sabe - hoje - que de pouco lhe teria valido. E que foi precisamente esse caminho que a trouxe até aqui, a este dia, em que se predispõe a Recomeçar - outra vez. Sabia que qualquer viagem teria de iniciar-se aqui, E a urgencia de seguir caminho - e descobrir o que a vida lhe reserva - trouxe-lhe também a coragem para começar a sua viagem. Para arrumar as imagens do passado e criar novas memórias que lhe pudessem preecher a alma. 

regressar


O que me move são as memórias. Cada sítio guarda a sua estória. Anseio por regressar aos locais que me marcaram, ao invés de procurar novos registos. Vivo agarrada ao passado. Não sei se por descrença no futuro ou apenas por me alimentar a nostalgia. Talvez seja aliás um sinal da passagem dos anos. Ou prova da maturidade por que que tantos anseiam. Os últimos tempos trouxeram-me uma necessidade de reviver momentos. De voltar a sítios que o coração teima em manter gravados. Seja por guardar deles as melhores memórias ou as piores angustias. No pensamento vai-se desenhando um mapa da vida. Uma série de recordações surgem agora mais nitidas. Nem sempre boas. Nem sempre más. Mas cada vez mais ricas em detalhes a que nunca cheguei a dar importância. Percebo agora que levei sempre muito tempo para apreciar as coisas devidamente. Talvez porque demasiadas vezes quis apenas que tudo acabasse depressa. Dou por mim a pensar em pessoas de quem há muito tinha esquecido o nome. E que no entanto me marcaram para sempre. Recordo avidamente viagens que me pareceram banais. A descubro que deixei nesses lugares tanto de mim. No peito cresce uma urgência de regressar. De preencher os detalhes que faltam. E unir os pontos no mapa. Como quem precisa de completar um desenho para lhe compreender o sentido. Ou como se precisasse encontrar os meus pedaços para poder então seguir caminho. O regresso não é apenas olhar para trás, ou evocar memórias. É procurar o que perdi no passar dos dias. E saber que esquecer o passado não serve para quem quer avançar. É acreditar que o nem sempre ter sido feliz não implica não poder ser -ainda - feliz para sempre. Regressar é portanto parte da viagem.


1# reality check





Without love it ain’t nothing
But a house, a house where
Nobody lives


2# do tempo


Todos os anos se repete o mesmo ritual. Ao soar das badaladas percorro mentalmente os desejos para o novo ano. Este ano tentei que fossem simples, exequíveis e, principalmente, mensuráveis. Queria que exigissem de mim um esforço crescente. Que fossem parte de um processo. Uma evolução. Que no final do ano me deixasse mais perto de quem quero ser. Decidi listar doze tópicos, tantos quantos os meses do ano. Num crescendo de exigência. Começando pelas coisas mais simples e, mês após mês, acrescentando dificuldade. Chegada a meio do ano impõem-se um balanço. Numa tentativa de manter a rota rumo aos desejos mais complexos. Há bons resultados mas também muito por fazer. Principalmente as mudanças de fundo. Há também muitas descobertas. Muitas portas que se abriraram. E também muitos mundos que estiveram ocultos por tantos anos e que agora chegam finalmente à superfície. Ganham forma de caminho. Daqueles óbvios mas nunca me tinha permitido ver. Nunca soube parar o tempo suficiente para me observar de fora. Para ignorar o olhar crítico, toldado pelos juízos que a vida me impôs. Nunca tinha sentido que tudo leva exactamente o tempo necessário para que - no fim - faça sentido. Muitas vezes nos parece que estamos parados mas, na verdade, apenas nos movemos à velocidade possível - ou necessária - para nos levar a bom porto. Somos tantas vezes demasiado exigentes. Tendemos a esquecer que cada acto tem o seu ritmo e, para que tudo fique no sítio desejado, é preciso dar tempo ao tempo. Deixar que o mundo se arrume por si só. Aos pouquinhos. Mas sem hesitações e recuos. Sem medos. Afinal de contas nada há a temer quando reconhecemos a vontade de partir. De avançar. Quando temos um caminho que queremos descobrir. E temos quem nos dê a mão e diga baixinho: vem.


(e ainda falta a metade melhor)


do tempo


o tempo não tem uma só unidade. pode ser medido em escalas diversas. conforme o sabor das emoções. um segundo pode durar toda a eternidade. e os anos podem voar sem que te dês conta. há uma ano aprendi a contar o tempo em semanas. primeiro curtas e preenchidas. depois lentas e vagarosas. cada vez mais pesadas com o avançar do calendário. os dias pareciam arrastar-se e tudo o que mais queria era que o tempo se despachasse. que me mostrasse o futuro - como se saltasse as páginas do livro na ânsia de chegar ao final. o tempo foi meu amigo e deu-me uma hora pequenina, como tu, que parecias escorregar-me dos dedos quando te abracei pela primeira vez. vieste cheia de pressa. com um desassossego próprio de quem tem toda a vida pela frente. tanta coisa para viver e pouco tempo para perder. mas para mim o tempo parou. a minha vida-sem-ti ficou congelada noutro fuso horário. num planeta distante que é difícil recordar. cinco meses passaram desde aquele pequeno instante em que o meu tempo ganhou uma nova escala. inesperadamente a vida passou a ser medida em horas de colo e de abraços apertados. em dúvidas e medos, abafados por sorrisos encantados e gargalhadas cúmplices. os dias são longos mas igualmente velozes. todas as horas são embrulhadas em papel-de-memória. como quem quer guardar, para todo o sempre, cada detalhe deste tempo que quero medir para sempre, apenas e só, em forma de amor.

e tu, como medes o teu tempo?


*35*


E há anos em que não precisas de dizer muito para que todos saibam 
que tens à tua volta tudo aquilo que alguma vez precisaste.

(obrigada a todos os que me estragam com mimos e estão sempre aqui comigo. para sempre. aconteça o que acontecer)

balanço pré-termo*



o passar dos dias ensinou-me a acreditar que sempre chegamos ao sítio onde somos esperados. porque sim. ou porque se deixarmos a vida acontecer, sem resistências, havemos de encontrar a tal estrada que nos leva onde-nem-sabemos-que-queremos-chegar. e porque tudo o que nos sucede tem um motivo. até quando somos apanhados de surpresa no momento mais inesperado. naquela altura em que tudo à nossa volta parece descabido, sem sentido, e a vida nos lança um desafio. ou nos aponta uma saída. talvez em forma de sinal que chegou a hora ir por aqui. mesmo que o medo fale - muito alto - e mesmo que o momento não seja o melhor (alguma vez será?). e mesmo que sinta que tudo foge do meu controlo. ou que ando a pisar terras nada certas. todas as estradas levam a caminhos que não esperava percorrer. o medo de errar mistura-se com as hormonas, num misto de pânico e de esperança. todos têm uma opinião e eu mantenho-me à parte, à espera - a contar as semanas - e a pedir baixinho que no fim, todas as peças se encaixem. e deixe de ser preciso explicar todas as coisas que não têm explicação. a vida - já o disse -é mais simples do que parece. se assim quisermos.



*(dos anos mais longos - como ciclos intermináveis - em que todos os dias apetece deixar de acreditar. como este 2016 que passei a fechar portas e a arrumar caixas, e a dizer tantos adeus para sempre,  apenas e só para agora saber - cheia de certezas - que o ano vai acabar com saldo positivo. e que tudo irá fazer sentido quando te tiver nos braços. até já)



coisas simples



às vezes ser feliz está apenas à distância das coisas simples. percebo agora que a vida é - na maioria das vezes - muito mais fácil se não teimarmos em complica-la. ou em achar que a felicidade depende de metas longínquas. ou em adiar decisões que, em poucos segundos, tornam a nossa vida tão melhor. dar o passo certo devolve-nos à vida. é incrível como dizer palavras tão simples pode trazer mudanças enormes aos nossos dias. ou como a coragem para arriscar fazer o que mais queremos é afinal tudo o que precisamos para sermos felizes. o dia-a-dia ensinou-me que a felicidade vem das tais coisas simples de que não nos privamos. se nos permitirmos fazer as coisas só porque sim. ou porque nos apetece - e porque, afinal, não há nenhum bom motivo para não as fazermos - o mais provável é que é amanhã acordemos mais felizes. pelo simples facto de termos ousado desbravar mais um caminho. mesmo que não seja o certo (ou o que os outros chamam de certo). a felicidade faz-se de boas memórias. de recordações que fomos construindo. das emoções que guardamos na pele. o que conta no último dia é que tenhamos preenchido a nossa vida de aventuras - mesmo as mais simples - ao invés de ficar à espera do dia certo, ou das condições ideais, para podermos finalmente começar a ser felizes. insistimos muitas vezes em complicar. em racionalizar emoções. em equacionar inúmeras variáveis - que não dominamos - como se isso fosse garantia de sucesso. quando afinal, a verdade, verdadinha, é que o nosso sucesso apenas depende da vontade que temos no peito. e do quanto queremos afinal sorrir todos os dias :)