14 abril 2008

Palavras para um nome

Como sempre, chovia. Ela estava sentada à janela. Olhava para o mundo lá fora em busca de algo que lhe chamasse a atenção. Era um daqueles dias difíceis em que lhe apetecia isolar-se à espera que o tempo passasse. Sabia que tinha de sair nessa noite e voltar a fingir que estava bem. Procurava dentro de si motivos suficientes para conseguir forçar o sorriso que os outros lhe exigiam…talvez apenas como forma de se sentirem menos culpados. Foi nessa altura que, do lado de fora da janela, apareceu uma mensagem que lhe provava que o conforto nem sempre chega na forma de abraço. Por vezes vem sob a forma de palavras soltas por alguém distante.

Desde então não voltou a fechar a janela. Aos poucos foi entrando uma poeira que foi polvilhando o seu mundo. Como uma neve seca. Formava uma espécie de atrito que por um lado não a deixava cair e, por outro, lhe permitia seguir em frente. Dia após dia essa fina camada foi ganhando forma. Dos pequenos grãos transportados pelo vento foi-se formando uma península, um mundo à parte, que um dia acabou por se soltar, sob a forma de ilha à deriva no mar.

Nessa ilha encantada habitam apenas dois seres desconhecidos que se deixam encantar ao sabor das marés, ao som dum idioma que criaram e que lhes permite longas noites de conversa ao luar. Este é um espaço em que o tempo passa a correr e onde chove todas as noites…talvez seja uma forma de lhes lavar as almas. Ou de lhes mostrar que existem emoções que não se conseguem travar.

A cada nova viagem que fazem pela ilha descobrem novos trilhos que levam às ilusões por viver. Encontram novos enigmas e novas formas de se abrigarem. Ao voltarem a casa sabem que a ilha é real…que existe de verdade! Não só porque têm areia nos sapatos, mas porque trazem ainda na pele o calor dos corpos. Nas suas mãos sentem ainda cada uma das texturas e as suas bocas saboreiam as descobertas.

Entre cada viagem ela pergunta-se várias vezes se a ilha ainda lá estará, no local onde a deixaram, e se serão capazes de lhe traçar as coordenadas para a voltarem a encontrar. Terá ganho novas formas e partido à deriva para locais mais quentes? Será que agora que o Verão se aproxima, e a chuva deixará de cair, a ilha irá desaparecer? O medo de lhe perder o Norte invade-lhe a alma. Procura um nome para lhe dar, que torne mais fácil encontra-la no oceano…mas o idioma que criaram não conhece palavras que cheguem para a nomear.

Talvez um dia encontre uma palavra perfeita para descrever esse local. Esse sitio onde consegue esquecer que existe um mundo cá fora, onde é capaz de voltar a voar e de onde volta sempre com um sorriso que não quer voltar a apagar. Dizem-lhe que tem um nome...mas parece-lhe tão pequeno para algo tão grandioso.

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