07 abril 2008

Uma sombra

Sonhamos alto. Deixamo-nos levar pelas ilusões. Damos tudo o que temos e perdemo-nos, sem olhar para trás. Fazemos planos até um para sempre e colocamos as expectativas muito acima da altura a que conseguimos chegar. Mergulhamos nessa ideia, nessa ínfima possibilidade, nessa ilusão de ser diferente ou especial. Sem medos. E um dia provam-nos o contrário. Afinal a estrada acaba aqui. Depois da curva não há mais nada. Fica na boca o sabor a ferida aberta, que não sara. Na pele a memória de cada golpe.


Ao invés do caminho ascendente, que se percorre lentamente a cada passo, como uma casa que construímos cautelosamente, tijolo a tijolo, no caminho de regresso tudo é muito rápido. Basta um descuido para desmoronar a sólida parede que havíamos construído. Um simples machado, tão pequeno, é o que basta para deitar por terra a árvore que cresceu sem (quase) darmos conta. No espaço de segundos, uma tempestade inesperada (?) leva-nos tudo o que dávamos como seguro. Fica um vazio, uma incapacidade de resposta. Ficamos incrédulos. No meio das ilusões nunca houve espaço que chegasse para o dia em que estas seriam levadas pelo vento.


E quando pensamos que o pior já passou, olhamos em volta e vemos os destroços. Não há meio de conseguirmos tirá-los do caminho. Lembramo-nos que nunca nada voltará a ser como dantes. Nunca aquela casa voltará a ter a mesma forma. Mal conseguimos lembrar-nos de como era antes…quando se erguia à nossa frente. Temos as fotografias, as memórias, mas olhamos as peças que restaram e não conseguimos dar-lhes um formato. Muitas das figuras que a habitavam desapareceram também. Pelo menos as principais. Também estas nunca serão as mesmas.


Sei que sempre achei essa árvore especial, sempre acreditei que tinha uma sombra melhor.
Lá do topo podia ver todo o mundo, não haviam limites. Dediquei-lhe todos os dias, mesmo quando não se via que estava a crescer. Construí cada detalhe dessa casa, para que fosse somente nossa. Cada janela com a vista que idealizava. Mas agora vivo desabrigada dessas paredes que me protegiam, à procura de uma sombra para me estender nos dias de sol. Se um dia chegarem…


p.s.: Ouvir esta música traz-me sempre de volta a esta espécie de planície polvilhada de destroços.



To Build A Home - The Cinematic Orchestra

"Cause, I built a home
for you
for me
Until it disappeared
from me
from you

And now, it's time to leave and turn to dust..."


5 comentários:

Dinesh disse...

A minha singela reposta a este teu post, está desde hoje no meu blog: húmus.

Beijinho*****

C. disse...

...pode ser singela mas é sentida.

quem me dera estar à altura e conseguir ver as cores que me tentas mostrar.

s. disse...

http://www.youtube.com/watch?v=jGVF0vWAXkI

(:

Catarina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
C. disse...

s.:
obrigada pelo vídeo...I'm also looking for the great escape! Para breve, espero ;)