04 novembro 2015

(aqui) estou em casa


Chamaste-me e eu vim. Voltei a casa. Ao local onde guardei para sempre os meus tesouros. A salvo do mundo lá fora. Da erosão dos dias. Do cansaço das rotinas. Sabe-me a casa de férias. Aquele espaço pelo qual suspiramos  todo o ano. Ou toda a vida. E do qual só guardamos boas memórias. Onde o tempo parece parar. Aqui os dias são mais longos. Faz sempre sol (mesmo em dias de chuva). As noites são quentes e no céu há sempre estrelas cadentes. Sabemos que a cada regresso tudo estará no devido lugar onde o deixámos. Quer tenhamos partido há um mês ou há seis anos. Ao reabrir a porta reconhecemos os perfumes gravados na memória olfactiva. Espalhados pela casa encontramos os nossos livros preferidos. Aqueles que nos servem de guia mas que já não consultamos há demasiado tempo. No gira discos está ainda o nosso álbum favorito. Mesmo a pedir mais uma voltinha, como quem promete uma viagem para outro universo. Nas prateleiras há uma colecção dos filmes que insistem em roubar-nos lágrimas. E aos quais nunca conseguimos resistir rever. Na esperança talvez de um final diferente. Ou apenas para nos permitirmos sonhar mais uma vez que temos aquela coragem de arriscar. Como os nossos heróis. Na gaveta encontramos os álbuns de fotografias. Imagens que a nossa memória insiste em reproduzir a cores mais vividas. Como se tivessem sido tiradas ontem. Sempre gostei deste termo. Tirar fotografias. Como se a película nos roubasse aquele instante. Ou o tirasse  desta dimensão para o guardar noutro mundo. Onde nada se perde. Como os planos que traçamos naqueles mapas guardados no móvel da entrada. E que ali ficaram à espera de uma próxima visita. De um regresso para novas aventuras. Na mesa de cabeceira encontro o meu velho caderno de notas com rascunhos do que ficou por dizer. Mesmo ao lado está um bloco de capa preta, rabiscado por crianças, e cujas páginas guardam ainda o sal da praia no Inverno. Sim, porque nesta casa não é sempre Verão, apesar de se encontrarem vestígios de areia entre os lençóis. E um pequeno búzio pousado na almofada. Como quem procura escutar as palavras que há tanto tempo se calaram. Sento-me no chão e vou abrindo os baús de recordações. Caixas de sorrisos à espera de serem (re)desenhados. Vou sacudindo as poeiras. Com uma sensação de paz quase desconhecida. Ou há muito esquecida. Como quem tem aqui tudo aquilo que precisa. Como quem finalmente se encontra.
Estou em casa.



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