25 fevereiro 2009

às voltas com o bicho #1


Ao primeiro impacto a sensação não foi agradável. Uma curta visita às instalações e chego ao open space…o sitio onde tudo se passa! As emoções dispararam: sinto-me perdida! Tento não olhar em volta para não ver mais do que me julgo capaz. Apresentada a equipa restava conhecer as unidades: aqui as unidades estão separadas por cortinas (…), aqui temos o ventilador X, que é diferente daquele na unidade 2, lembras-te? (…) esta é a nossa Prisma que é muito inteligente, não tens de te preocupar que ela diz tudo o que precisas fazer! (…), estas tomadas azuis são aquelas a que têm de estar ligados os equipamentos que nunca podem falhar, (…) ah, muito importante, aqui é onde se silencia o monitor! Senti-me atropelada por um interminável comboio de informação fundamental para a minha sobrevivência naquele sítio: se te esqueces de alguma destas coisas está tudo lixado! O Enfermeiro falava. O meu pensamento divagava para locais mais seguros. Olho para a cama e caio em mim: quem é esta pessoa aqui deitada à minha frente?. Falámos de parâmetros, de equipamentos, de monitores e de fármacos mas…isso tudo existe para prestar cuidados à pessoa, certo? Há todo um aparato em volta da pessoa, tudo é feito com o objectivo de garantir a sua sobrevivência mas esta espécie de coma induzido facilita que nos esqueçamos que, por detrás de todos aqueles fios e sondas, existe uma pessoa. Os monitores piscam a cada segundo, os alarmes tocam a cada alteração mas certamente nenhum deles vai tocar à campainha para pedir que lhe puxe a almofada para cima. Nenhum deles vai interromper a minha excursão à sua unidade para dizer ofendido: olhe que eu estou aqui!
(...)

2 comentários:

André disse...

É só uma realidade diferente, outros focos, outros automatismos, e tu que tens tiques de quem se interessa pelas pessoas atrás dos fios, vais conseguir descobri-las nos pacientes, nos médicos, nos enfermeiros e nos auxiliares e a confiança vai crescer em ti. Torço por ti, faz-te ...

c. disse...

obrigada André...acho que o meu problema são exactamente esse tais tiques, que obrigam a pensar, a ver o que há para lá da maquinaria. são os tiques que tornam dificil o desligar da pessoa. Não que as queira esquecer mas...gostava de ter a capacidade de me desligar no momento certo, ao invés de trazer as preocupações para casa :S

até breve*