22 novembro 2012

mudança de estação



para te manteres vivo - todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe o brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho 
para o cobre luminoso do outono e 
às primeiras chuvadas recomeças a escrever 
como se em ti fertilizasses uma terra generosa 
cansada de pousio - uma terra 
necessitada de águas de sons afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhas rente à janela 
sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo 
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis 
da memória 

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes 
que se enforcam com a corda de noctilucos 
estendida nesta mudança de estação 

Al Berto


ou de como, ano após ano, nos vamos renovando. sacudindo poeiras. polindo detalhes. conquistando novos territórios. preenchendo os dias de memórias e sorrisos. uns mais amarelos que outros. tirando fotografias que queremos para sempre nas nossas paredes. coleccionando  momentos que esperamos um dia nos sirvam de consolo. como se tudo não fosse afinal pouco mais que apenas um ciclo. como se um dia não acabássemos da mesma forma. ou como se a tão desejada chegada da primavera não fosse sempre prenúncio do inverno que se avizinha. teimamos em ignorar a sabedoria alheia. afinal o que sabem os outros das nossas estações? lutamos por fingir que agora é que é. este é sempre o ano em que vamos quebrar a rotina. inventar novos caminhos. descobrir o desconhecido. pelo menos é nisso que acreditamos quando sopramos mais uma vela. é isso que pedimos ao soar de última badalada. talvez para alguns seja apenas uma questão de hábito. talvez para outros seja mesmo um momento de crença. o certo é que nos dá a esperança que agora nada será como antes. que hoje é o dia em que tudo (re)começa a sério.
 


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