12 dezembro 2009

vidas alternativas #7


gosto dela. foi assim que começaste. gostava. já não estamos juntos. e isso sente-se pelo tremor na tua voz. mas é claro que as coisas não passam assim. todo o ambiente encorajava o tom confessional. ela foi dispensada no emprego e está numa fase complicada. continuaste como quem tenta justificar algo que não compreende inteiramente. diz que só vive um dia de cada vez. que não está para isto. as mãos tremem-te. tentas disfarçar brincando com o copo de vinho que te liberta as palavras. habituou-se a ter o seu espaço. não se quer prender assim. fixas-me com o olhar disfarçadamente e continuas. parece que isto é mal comum agora. deixas escapar um riso irónico na minha direcção. os teus olhos denunciam que o álcool está a levar a melhor. o burburinho no bar dificulta o trajecto das tuas palavras até mim. sei que não é caso para tanto mas acreditava mesmo nisto. aqui e ali vão chegando frases soltas que me prendem a atenção. à medida que esvazias a garrafa a capa de timidez derrete-se como as velas que nos servem de iluminação nesta mesa. há um crescendo na forma como os nossos olhares se cruzam. talvez culpa do feedback que vais recebendo da tua ouvinte. será que também ela te convence a arriscar como quem não tem nada a perder? sinto-me cansado. admites enquanto baixas o olhar. o meu coração aperta-se quando reparo o teu esforço para não te deixares transbordar. só queria encontrar uma pessoa disposta a perder-se de verdade. compreendes? em poucos segundos a tua confidente ausenta-se da mesa. na outra ponta consigo ouvir o ecoar da questão que ficou no teu pensamento. seguras o copo quase vazio e prendes o teu olhar ao meu. como quem procura desesperadamente uma ancora que não o deixe naufragar. nesse instante reparas que a distância que nos separa não foi suficiente para te garantir a privacidade. encolhes os ombros e lanças-me um sorriso de quem tenta disfarçar o tom ruborizado. sinto-me invadida por um nervoso miudinho que me faz gelar. recordo as conversas intermináveis em que me garantes não haver nada a perder. e rendo-me. agarro-me ao teu olhar como quem veio para ficar e devolvendo o sorriso arrisco sussurrar-te: eu também.

4 comentários:

J. disse...

posto isto eu pergunto: ouviste alguma coisa do que eu te disse?

summer disse...

adorei o post (:

ST disse...

chorei imenso com este post

c. disse...

J: o meu lado gaja permite-me ouvir várias conversas ao mesmo tempo :P


obrigada summer :)

ST: as vidas (alternativas) alheias fazem-nos tantas vezes rever as nossas próprias desventuras...