11 dezembro 2009

vidas alternativas #6



foi assim com quase todos. após meses de treino chega o grande dia. desmontam-se as rodinhas. alguém se oferece para nos equilibrar. e após umas voltas, quebrando todas as promessas, somos largados à sorte. quando menos esperamos já pedalamos sozinhos. aquela mão que nos segurava ficou lá atrás. e nós estamos agora junto à esquina que tanto queríamos cruzar. há quem seja mais radical e use a mesma técnica na natação. primeiro a bóia. depois a mão que não nos deixa ir ao fundo. e, como por magia, ali estamos nós à superfície. como se fosse a coisa mais natural. suster o corpo sobre a água. mas estas são técnicas modernas. e todos sabem que as modernices só nos tornam mais frágeis. o melhor mesmo é deixá-los cair de uma vez à água. a ver como se safam. o instinto de sobrevivência é inato, dizem. e assim é. com uma ou outro mossa. este ou aquele medo. aqui estamos. fortes (?) e saudáveis. muito mais preparados para a dureza dos dias. até ao dia. até ao momento em que percebemos que nos falta o essencial. porque sim, conseguimos desenrascar-nos, mas não chegámos a compreender a subtileza dos detalhes. não chegámos a ter o tempo necessário para
sentir. não nos deram o espaço para estudar a consequência de cada movimento. faltou o poder apalpar terreno. a liberdade para optar por este ou aquele caminho. na luta para nos mantermos à tona não desfrutámos as sensações. o prazer da conquista a cada etapa. a satisfação de nos vermos capazes. o orgulho nas palavras de incentivo enquanto desapertavam as rodinhas antes da prova de fogo. faltou a palmadinha no ombro. ficou para sempre a sensação que a vida é um tudo ou nada, sem espaço para segundas hipóteses. restou a sensação de urgência. a certeza que tudo tem de ser definitivo. que qualquer falha é fatal e não apenas sinónimo de mais um arranhão. construiu-se assim uma casa para o medo, para a necessidade de jogar sempre à defesa. criou-se a necessidade de duvidar sempre. de não dar muito espaço. de suspeitar a cada vez que uma porta se abre no caminho. alimentou-se uma força que faz recuar muitas vezes. porque neste caminho há sempre apenas duas cores. como se tudo tivesse de ser branco ou preto. e por via das duvidas mais vale não arriscar. ficou a incapacidade de agir sem a pressão. sem a certeza que a escolha errada será a morte do artista. restou a necessidade de ficar à espera da próxima surpresa. a tal nova pancada para que nos devemos preparar. enquanto ficamos, em posição de defesa, a ver a vida a passar lá fora. mergulhados neste vazio dificil de preencher. um buraco empoeirado onde mal se consegue ver. muito menos se conseguirá compreender. até porque, para nós, as coisas foram sempre tão naturais como andar de bicicleta.
(e isso é coisa que nunca se esquece)

1 comentário:

lu disse...

já te disse que te adoro?
pois é.. é verdade!
e disto já não te safas ;)*