13 agosto 2009

ponto de situação #3

Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente

Sérgio Godinho


Tenho aqui um nó. Do tamanho do mar. Todos os dias me sento aqui. Olhar perdido no cursor. E nada, nem uma palavra. Aliás, vem uma. Depois outra. Mas não há meio de conseguir organizar as ideias. Talvez nem seja suposto organiza-las mas preciso realmente de fazer aquele exercício de empacotar as coisas para ganhar espaço para as restantes. Há uns meses tinha resgatado aquelas palavras do Sérgio Godinho, para que as pudesse deixar aqui quando terminasse o curso. Na altura faziam-me sentido. Hoje continuam a fazer. Mas é um sentido diferente.
Passei anos a lutar por este sonho de criança. Posso afirmar que longo desses anos nada foi fácil. Mas eu aceitei todos os desafios. Lutei contra quem se opôs. Construi castelos de areia. Iludi-me que quando aqui chegasse seria finalmente feliz. Tudo seria quase, quase, perfeito. Tracei todos os caminhos com detalhe e, agora que aqui cheguei, vejo que não me levam a lado nenhum. Sempre julguei que chegar aqui seria sinónimo de alegria, de festa. Agora olho em volta e percebo que todos os que estavam comigo na partida estão agora longe. Ou demasiado longe. Dou por mim a olhar em volta e sinto que já ninguém compreende realmente o que isto deveria significar. Nem mesmo eu. A verdade é essa. Este sonho foi perdendo sentido à medida que tudo se foi desmoronando ao longo dos anos. A única coisa que restou foi o meu capricho de conseguir chegar ao fim. Mas de que nos vale chegar à meta se pelo caminho formos perdendo aqueles que queríamos abraçar à chegada?
Ironicamente, ou não, aquelas palavras pertencem a uma música chamada Liberdade. Quando as guardei pensava que seria essa o meu sentimento. A certeza de poder finalmente libertar-me de todo este peso que trago. Poder ser agora livre para novos sonhos. Mas a verdade é que me sinto agora mais presa. Sinto-me apertada por uma força que me impede de continuar a lutar por ir mais além. De continuar a exigir tudo aquilo a que tenho direito (?). Sinto um cansaço imenso. E sim, tenho medo! Sinto-me mais frágil. Preciso agora do tal porto seguro onde possa descansar e recuperar energias para (talvez) um dia voltar a partir. Preciso deixar que o corpo se molde ao que surja no caminho. Sem questionar demasiado. Apenas sentindo o que isso me traga de bom. E, por uma vez, deixar-me levar pela corrente...


5 comentários:

Ciclideo disse...

Amiga!

Uma das coisas que aprecio é maneira como passas a tua mensagem, através de uma escrita bastante expressiva. Ao ler estas linhas (entre outras) faz-se um eco em mim, como se eu tivesse passado pelas coisas com tu. Algumas eu já terei saboreado, doces ou amargas, outras nem tanto... Fica a curiosidade!

Em relação ao teu texto, parece-me que por vezes é essencial dar tempo e espaço à vida para que as coisas simplesmente aconteçam. Não tenho a certeza que a busca incessante de respostas num tempo determinado seja o melhor. É estranho confiar assim no (aparente) nada mas... why not? Tal como acontece com o mar, cuspindo o que não interessa, no fim deste processo sobram as melhores coisas. Pelo menos assim espero para ti... e também para mim :)

Isto dava uma longaaa conversa :P

Fica bem e beijocas
**

c. disse...

Amigo :)

Concordo que às vezes é importante é saber quando devemos baixar os braços e simplesmente aceitar o que nos surja no caminho. Muitas vezes esbracejamos tanto, lutamos com tanta garra contra as coisas que nos surgem, que acabamos enterrados dos nossos próprios erros, sem conseguir sequer ver claramente as coisas boas que estão mesmo ao nosso lado.

Por isso mesmo agora apetece-me ficar à espera. a observar com maior atenção cada detalhe. a conhecer melhor cada pessoa com quem me cruze. Sem aquela necessidade urgente de compreender. de tornar tudo lógico. A partir de agora tudo será mais sensorial. Menos racional. ou assim espero...

Obrigada pelos teus elogios. Recebo-os com um carinho especial porque sei que também saboreaste coisas parecidas. tanto das doces como das amargas. como? fica a curiosidade...porque daria realmente uma looonga conversa :P

abraço(te)
**

Tours For You disse...
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Judie disse...

Querida C.
O triunfo de teres chegado aonde chegaste é mais importante ainda considerando a espinhosa caminhada que te trouxe aqui. O mais importante não foi, definitivamente a chegada, mas sim todo o caminho que fizeste até lá. E se isso não é suficiente para te fazer nascer "aquele" sorriso e umas sementes de esperança no que está para vir, podes ao menos, gritar com orgulho que o caminho se faz caminhando e que a mulher de mérito que és hoje se deve a esse caminho tão único, tão pessoal.
E não desaparecemos todos...nós ainda cá estamos...e como estamos felizes por ti e por nós, por estarmos ainda contigo!
Beijinhos com gostinho de mar de Inverno***
(esta é que sou eu!eheheh)

c. disse...

Judie

...pertences ao pequeno grupo que esteve ao meu lado desde o inicio. aqueles poucos que não desapareceram no caminho. aqueles com quem me sabe melhor partilhar agora esta vitória. e também a partida para o que se siga. por isso mesmo as tuas palavras têm para mim um gosto especial. porque sei que são sentidas. porque sei que sabes o que dizes. embora eu não o sinta. se tu o dizes, então eu esforço-me por acreditar mas...não sinto :(

talvez um dia...