03 março 2009

às voltas com o bicho #2


Ultrapassado o primeiro impacto, passei à fase em que tive de me habituar a todo o aparato. Se fechasse os olhos poderia ouvir uma espécie de melodia produzida pelos ventiladores e alarmes que não se calam. Sempre que me deito para dormir continuam a tocar nos meus sonhos atribulados. Lentamente fui-me adaptando, aprendendo a sobreviver naquele sitio, conheci os cantos à casa, apliquei-me no estudo, dediquei-me a compreender tudo o que se passa à minha volta mas... o que realmente me custa é o contexto. É dificil de explicar mas a verdade é que sempre me custou prestar cuidados nesta fase da vida. Sempre me custou lidar com a efemeridade da vida. Com o facto de "agora estarmos aqui e daqui por um minuto já não estarmos". Poderia dizer-se que é medo da morte mas...parece-me que é mais que isso. O que me incomoda é todo o processo anterior de incapacitação, de deterioração do corpo e, principalmente, da mente. Custa-me que a vida e a morte não sejam separados apenas por segundos, que façam parte de um continuum em que vivemos diariamente e que, por vezes, se arrasta por demasiado tempo. Aqui revolta-me a luta continua pela vida...afinal o que é isso de estar vivo? Questiono-me se aquelas pessoas quereriam realmente viver rodeadas de todo este aparato ao invés de simplesmente partir. Não seria mais humano respeitar a vontade do corpo que cansado se vai deixando ficar? Não seria mais correcto que deixássemos de lado este suporte artificial de vida que traz consigo tanto sofrimento? E nem falo apenas da eventual dor que a pessoa possa sentir...falo da mais que certa dor dos seus familiares e amigos que vêem também as suas vidas colocadas em stand by...

...lentamente vão-se construindo certezas: isto não é para mim!


p.s.: continua a contagem decrescente: faltam 5 turnos!

2 comentários:

Tiago disse...

Percebo-te tão bem...

... é por essas e por outras que eu sei que não tenho estofo para trabalhar na tua área. Eu não duraria 2 semanas num trabalho como o teu.

Um abraçinho grande*****

Gonçalo Rosa disse...

"respeitar a vontade do corpo"... nos nem a da mente (dos outros) aprendemos a respeitar, quanto mais a do corpo...

Bjis,

Gonçalo