26 janeiro 2009

cartas


As cartas sempre me fascinaram. Tinha oito anos quando comecei a trocar correspondência. As primeiras moradas vieram do Clube da Verbo. Meninos e (principalmente) meninas da minha idade, espalhados por todo o país. Muitos ficaram perdidos após uma ou duas cartas. Com alguns cheguei a encontrar-me. As minhas constantes mudanças de casa fizeram com que esta fosse a única forma de contacto com os amigos que ia fazendo em cada morada. Fizeram também com que estes fossem os meus únicos amigos constantes. A vontade de conhecer outros mundos fez-me alargar a rede de pen-friends. Houve alturas em que trocava cartas com pessoas dos cinco continentes. Além disso mantinha correspondência com colegas de escola que também tinham o mesmo fascínio pelas cartas. Alguns ainda hoje se mantêm, deixando a sensação de poder sempre contar com eles. Depois vieram os tempos dos namoros por carta. Das promessas de amor escritas e assinadas. A verdade é que os conteúdos das cartas foram variando com os anos, mas as emoções mantêm-se. Sei que os melhores amigos são aqueles a quem posso escrever, com a certeza de receber uma resposta na volta do carteiro.

Costumava dizer que a caixa do correio era o meu sitio preferido da casa. Resolvi dedicar-me à sua manutenção. Todos os Verões lá andava eu a retocar a pintura, a olear a fechadura…nada se compara à emoção de abrir aquela caixinha mágica e encontrar um envelope dirigido a mim. Tudo começa no encanto do próprio envelope, a que se junta a beleza dos selos. Por norma passo horas a observar o invólucro até finalmente ganhar coragem para ver o seu conteúdo. Abrir uma carta envolve todo um ritual. Todas elas são únicas e merecem ser abertas num ambiente específico. Algures, do outro lado do mundo, alguém “perdeu” o seu tempo a escrever-me e merece portanto toda a minha atenção…ainda que por apenas alguns minutos. O tempo que leva desde a sua chegada até que seja aberta vai variando, conforme me ligo a cada pessoa. Já tive cartas que andaram comigo vários dias até serem abertas…dão-me a sensação que, se tudo o resto correr mal, tenho ali uma espécie de tábua de salvação. Uma alegria para os tempos difíceis. Um sorriso para dias mais cinzentos. Uma reserva de energias para quando me perder no caminho...

Com o passar dos anos este hobbie tem-se tornado cada vez mais difícil de alimentar. Por um lado a internet leva a que muitos pen-friends deixem as suas canetas e optem pelos e-mails. Por outro facto dos CTT simplesmente não funcionarem também não ajuda. Enviar cartas dentro do país já é uma aventura…quanto mais conseguir que elas nos cheguem às mãos quando vêm de outra parte do mundo. Passam-se meses sem que receba uma carta e muitas das que envio não chegam ao destino. Em muitos dos casos passei a usar o e-mail para manter o contacto mas a verdade é que não sabe ao mesmo. A verdade é que hesitar durante horas abrir a caixa de correio electrónico (sim, acontece!) nunca será o mesmo que viajar com um envelope por abrir na bagagem. Nunca qualquer tipo de letra catita chegará à beleza da caligrafia por vezes indecifrável. Nunca qualquer anexo terá o valor dos bilhetes de comboio trocados nos envelopes (ficaria aqui toda a noite a descrever as coisas estranhas que troquei por correspondência). Nunca conseguirei transmitir por e-mail as emoções que deito no papel. Nunca as palavras escritas na tela terão o mesmo valor das outras, as verdadeiras, desenhadas no papel…


…sinto tanta falta dessas cartas!



8 comentários:

Barrabás disse...

:)

inês, a anónima disse...

se queres uma carta, dá-me a tua morada ;)

c. disse...

Ah Inês...alguém que me compreende!!!

Terei todo o gosto em enviar-te a minha morada e ficar ansiosa à espera da tua cartita :D

Até já...

inês disse...

"principalmente meninas da minha idade" meninas?! conta-me historias. escrevias era para os moços da tua idade*

Barrabás disse...

Inês,
já tive o privilégio de vasculhar a caixa da correspondência da c. e confirma-se... meninos e mais meninos! :)

c.
Desculpa-me, mas eu sou amigo da verdade e o que disse anteriormente tinha de ser dito! ;)

p.s.: Aguardo novidades na volta do carteiro! Se é que me faço entender!

Laranjinha disse...

Belissimo.
Estás coberta de razão...!*

c. disse...

inês: grande lata...não devias andar por aí a difamar-me!

barrabás: confirma-se que violaste a minha caixa mas não tenho ideia de serem assim tantos meninos...na actualidade talvez sejam realmente mais rapazinhos mas quando era pequenita eram quase só meninas

ah, como disse isto está escasso de tempo mas responderei à tua ENORME carta logo que possível ;)

laranjinha: bem-vinda ao clube :)

Pandora disse...

Posso dizer que mal nasci já haviam telemóveis, daí a nada já haviam computadores por todo o lado e num instante o gigante mundo da internet batia-me a porta. Porém, talvez pelo o meu gosto pela escrita, escrevo imenso em papel, o "gosto" é completamente diferente e não é por ser minha letra bonita, longe disso, mas parece que dou uma vida mais duradoura ao que quero transmitir, podem sempre guardar e recordar, numa caixa de correio electrónica, em pouco tempo, certamente, tudo será arrastado para a reciclagem.