16 setembro 2008

Confiança(s)

Ostersund (Suécia) - Fevereiro 2004


Desde o primeiro suspiro que procuramos alguém em quem possamos confiar. Alguém que nos dê a mão, que cuide de nós quando mais precisamos, que nos aqueça em dias frios e que se disponha a oferecer-nos sorrisos mesmo quando não os sabemos devolver. Ao longo dos anos vamos aprendendo que nem todos o farão e, acima de tudo, que aqueles que hoje nos acompanham acabarão (quase) inevitavelmente por falhar a dada altura. Normalmente quando mais precisamos.

Tornamo-nos mais cautelosos e aprendemos que, afinal, não podemos confiar em toda a gente. Ou pelo menos não podemos confiar cegamente como seria nosso desejo. Vamos criando defesas e, lentamente, fechamo-nos no nosso castelo e não permitimos que qualquer um o possa invadir. Vivemos de relações ilusórias. De abraços dados através das grades, que se querem fortes para nos protegerem. Para garantir que ninguém chegará realmente até nós. Movemo-nos em mundos paralelos que tememos que passem a reais. Estabelecemos ligações aqui e ali, preferencialmente à distância. Sempre a uma distância que nos permita alguma margem de manobra para fugirmos. Para nos defendermos. Construimos e vendemos uma imagem idealizada de nós mesmos. E, acima de tudo, esforçamo-nos para que nunca ultrapassem a tal linha imaginária que uma vez transposta implica grandes riscos.

Nem toda a gente consegue passar esta fronteira tão bem (?) protegida. À custa de muitos erros vamos aprendendo alguns truques que nos ajudam a distinguir quem merece visitar-nos. Muitos nos estendem a mão mas poucos são os que querem realmente aliviar-nos o peso que trazemos. Por vezes passam-nos o braço pelo ombro apenas para sentirem até onde conseguimos suportar. Outros sentam-se ao nosso lado, sem que alguma vez estejam realmente connosco. Para a maioria somos uma espécie de passatempo. Quando o nosso grau de exigência aumenta, ou quando a dificuldade dos nossos problemas sobe de nível, afastam-se como crianças aborrecidas por não conseguirem resolver um quebra-cabeças. Não é facil fazer a distinção e o instinto, que tantas vezes nos comanda, nem sempre indica os melhores caminhos.

Por vezes baixamos a guarda e deixamos que cheguem a este lado. A este mundo que só nós conhecemos e que guardamos como um tesouro. Não que seja precioso mas apenas porque é o que temos de mais nosso. As nossas memórias de criança e os nossos sonhos de adulto. Os medos que nos assombram as noites e os desafios que fomos ultrapassando. As lágrimas que chorámos sozinhos e os sorrisos que fomos conquistando. As ilusões que ousámos viver e as outras que tememos assumir. Coisas pequenas. Uns pequenos nadas que nos dão a ilusão de sermos unicos, especiais. Ainda que apenas aos olhos daqueles a quem nos vamos entregando. Afinal, de que vale um tesouro se não o pudermos partilhar?

Então arriscamos confiar. Confiar implica sempre um elevado risco. É precisamente o estar disposto a correr esse risco, quando não sabemos o que nos espera. É estar disposto a baixar as armas, mesmo sem saber o que há do lado de lá. É deixarmo-nos cair, mesmo sem certezas se nos vão agarrar. É fechar os olhos e deixarmo-nos ir às cegas. É perder o (aparente) controlo sobre o que nos rodeia e acreditar em quem nos leva pela mão no escuro, muitas vezes em silêncio. É seguirmos um caminho sem certezas. E mesmo assim irmos. Apenas porque sim.

...e sabe tão bem deixarmo-nos ir!




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