22 novembro 2014

* 33 *


Chegar aos 33 com a paz que procurava. Sentir o dever cumprido como quem chega finalmente onde sempre esteve. Olho para trás e gosto deste rasto que fui deixando. Porque um dia a bagagem permite achar o nosso caminho bonito. Porque um dia gostamos do resultado e fazem-nos sentido as rasteiras da vida. Não porque fossem merecidas mas porque aprendemos a aceita-las. Porque já não adormecemos a remoer o porquê. Como se a lente do tempo nos permitisse compreender que o melhor da vida são os desafios. Ou como são as estradas mais atribuladas que nos levam aos locais mais bonitos. E às pessoas mais bonitas. Nunca fui de pessoas. Sempre priorizei o silêncio do mar. Ou a solidão da noite. Mas agora, olhando deste prisma de 33 faces, descubro que o que me faz feliz são aqueles que me rodeiam. Os que aprendi a aceitar à minha volta. Sem as eternas resistências. Com a sabedoria que a idade confere. E a urgência de vos viver. De vos sentir. Como quem descobre que traz consigo o maior tesouro. Como se a experiência da viagem tivesse peso de diamante que queremos trazer ao peito em forma de amuleto. Para nos proteger. Para nos guiar. Ou apenas para nos recordar que afinal o mais importante não é ter respostas mas sim ter perguntas.


Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Manuel António Pina

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