08 outubro 2014

interiores #5


Às vezes esquecemo-nos das regras mais básicas. Por exemplo: o que é difícil não é tomar decisões mas sim lidar com elas. Dia após dia. Para sempre. O decidir mudar chega sempre com entusiasmo. Toda aquela euforia do prometido mundo novo. As borboletas na barriga causadas pelo desconhecido. Tudo à volta parece ter outras cores. Carregamos a certeza de que agora é que é. Era este o caminho que há tanto tempo procurávamos. Depois chega o dia seguinte.  A semana seguinte. Tudo parece (ainda) simples. Questionamos como podemos ter temido arriscar. Tanto tempo que perdemos na dúvida. Com todos aqueles medos. Quando afinal era só sair da zona de conforto. Arriscar. Partir. Escolher a acção por oposição à inércia. Então chega o mês seguinte. E depois o outro. Vamos adiando parar, agora que apanhamos o comboio. Parar é que não! Pensar é coisa que não apetece. Queremos é deixar-nos ir. Embalados pela ilusão do estar a caminho. Fechar os olhos aos sinais plantados estrada fora. Novamente. Fazer ouvidos moucos à consciência. Os meses passam lá fora. Mas aqui tudo se mantém. Naquela ilusão de estar tudo bem. Faz tudo parte do plano. Aquele que traçamos em tempos. Rumo ao tal destino que acreditamos ser o melhor. Mesmo que ignoremos já porque raio escolhemos esta estrada. Ainda que já tenhamos esquecido as promessas que fizemos lá atrás. As tais que falavam de mudança. De lutar pelos sonhos. As que garantiam um acordar dos sentidos. Ver mais. Sentir mais. Viver mais. Na bussola o ponteiro treme insistentemente. Como quem denuncia que - se calhar - nos perdemos novamente. Como quem pede para paramos. Que abrandemos por favor o ritmo. Que espreitemos para dentro - ainda que às escondidas. E que percebamos que talvez não tenhamos chegado a sair do mesmo lugar.

Sem comentários: