26 junho 2014

vidas alternativas #12

ensinaram-me que não se deve revisitar os locais da paixão. foi talvez por isso que hesitei enquanto subia as escadarias. na última fracção de segundo os nossos olhares esforçaram-se por encontrar outro foco. também nesse instante decidimos em silêncio fechar para sempre a janela onde durante anos vimos passar vidas que nunca tivemos coragem de viver. sempre foi assim, em silêncio, que tomamos as decisões mais importantes da nossa vida. nesse dia regressamos a casa mais leves, como a cada recomeço. mas também mais perdidos. como se o mundo que até então conhecíamos tivesse mudado e fosse preciso voltar a aprender tudo do zero. recordo agora que também foi assim no nosso começo. e então fechamos a porta de casa e comprometemo-nos a guardar para sempre aquele baú. o cofre que fomos preenchendo com memórias ao longo dos anos. os bilhetes de comboio da primeira viagem que fizemos juntos. a conta do jantar na primeira saída a dois. o recorte do jornal com a crítica daquele filme - sim, aquele que será para sempre o nosso filme. as fotografias com sorrisos a preto e branco que em tempos ocuparam a moldura da sala. guardamos os pequenos presentes que fomos trocando. aqueles que ninguém entende o valor mas dos quais lembramos ainda o significado. os rios de tinta em forma de carta - aquelas que fomos escrevendo noite(s) fora com a certeza de que um dia serviriam de prova do nosso amor. não eterno - sabemos agora - mas genuíno. dobramos novamente os mapas onde traçamos as rotas das nossas viagens. aquelas que trazemos na bagagem e as outras que nunca sairão do papel. unimos esforços para que não fique cá fora nenhuma lembrança do que fomos. para podermos finalmente fechar este capítulo. sentimos a certeza de ter apagado qualquer detalhe que nos faça vacilar. tudo o que até agora nos impedia de avançar está encerado naquele baú. aquele que decidimos guardar no sótão. como quem fecha para sempre uma porta mas insiste em trazer a chave junto ao peito.



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