02 março 2010

vidas alternativas #8

O que a fascinava era o eterno jogo do toca e foge. o poder de cada movimento. de cada palavra. ou cada silêncio. sentir o desencadear da reacção no outro. conseguir prever o acelerar da pulsação. como se isso lhe garantisse algum poder. como se lhe garantisse o controlo da situação. gostava de provocar. admitia-o. quase tanto como de ser provocada. era isso que a estimulava. o constante testar dos seus limites. ser forçada a manter a sensatez apesar do constante xeque. alimentar a dança no tabuleiro. como se assim garantisse a atenção. como se pudesse assegurar o protagonismo. pelo menos enquanto mantivesse a postura. enquanto fosse ela a dominar a jogada. a controlar o outro. enquanto fosse ela a ditar as regras. até que a sorte lhe trocou as voltas trazendo-lhe um adversário audaz e experiente. disposto a jogar às cegas. já sem medo de perder. que lhe garantia ser invencível. que lhe desenhou novas fronteiras, muito para lá do que julgava razoável. mostrou-lhe um novo universo de fantasias. alimentou-lhe o ego mesmo em cada derrota, ensinando-lhe que neste campeonato o melhor troféu é perder o controlo. explicou-lhe que as melhores vitórias são as que surgem subtilmente no ultimo movimento. naquele instante ínfimo em que o outro já se dava por vencedor. nunca tinha dançado com ninguém assim. estimulava-a o desafio de lhe assistir a cada jogada. de não o deixar levar a melhor garantindo um combate renhido. mas assustava-a a ideia de - talvez pela primeira vez - sentir que não estaria à altura. esta partida ditaria o final da sua carreira de pleasure delayer.

6 comentários:

蔡依林Jolin disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
ST disse...

adorei! muitos parabens

d. disse...

É bom ler este conto, que com tanta facilidade sai do monitor e ganha vida aqui. É mais chato quando o telefone toca e volta tudo para trás. Próximo post tenho de me lembrar de por o telefone em silêncio.

c. disse...

...e é bom receber o retorno das nossas palavras. saber que há um eco distante. ainda que interrompido pelo ruído do mundo real. aquele de que tentamos fugir com pequenas confissões do que há realmente cá dentro.


(o - outro - lado bom das palavras é que podemos sempre regressar a elas depois de nos assegurarmos que desligámos o mundo lá fora)

Geraldo Brito (Dado) disse...

Envolvente...

summer disse...

história linda e com um toque que para mim tem algo de familiar, ADOREI ^^