07 fevereiro 2010

Por aqui ou por ali?


Começou com a inquietação. O fascínio por descobrir cada caminho. Um deslumbramento pela infinidade de hipóteses com que me deparava. Havia a certeza de tudo ser possível. Bastava apenas escolher por onde ir. O que mais queria fazer. Aceitar a impossibilidade de abrir todas as portas. Render-me à inevitabilidade das escolhas e decidir. Escolher um ritmo e deixar-me ir. Uma espécie de por aqui e por ali. Marcado pelo dramatismo de não poder provar todos os sabores. Lá fora havia um mundo cheio de hipóteses. Eu só tinha de avançar ao sabor da vontade.
Depois veio o abalo. O mundo desabou. Os caminhos fecharam-se. Fiquei nos escombros imóvel. Agarrada à certeza única de não querer ir a lado nenhum. Nem por aqui nem por ali. Nenhum dos caminhos me cativava. Ainda cá estava - garantiram - mas não sabia onde. Perdi-me. Olhava e não reconhecia nenhum caminho. Nada era como dantes. O mundo não era o mesmo. Continuava a não saber por onde ir. Mas sabia definitivamente por onde não queria ir. Tinha perfeita noção de não querer aquele caminho. Era uma certeza que doía. Que de tanto arranhar escavou cicatrizes. Marcas que lembravam a urgência de avançar.
E lentamente habituei-me às ruínas. Aprendi a conviver com as sombras. E a fugir dos fantasmas. Buscando forças nos detalhes. Procurando entre as poeiras. Esboçando novos trilhos. A medo. Com passos incertos. Tacteando cada detalhe. Hesitando: por aqui ou por ali? Como quem procura o caminho no escuro. Como quem não sabe sequer onde quer ir e se move pela curiosidade de saber o que há no fim da linha.
Até que me desinteressei na busca. Cansei-me da viagem. Continuo a andar (?) mas sem um motivo. Movo um pé atrás do outro em modo automático. Sem olhar em volta. Como quem se cansou do caminho e acelera estrada fora. Os caminhos surgem mas não me cativam. Nenhum me toca. Há portas que se fecham mas eu sigo indiferente. O mundo está a desabar e eu mantenho o compasso. Indiferente ao que me rodeia. Intocável face a qualquer provocação. Imune a qualquer sensação. Subitamente tudo se tornou indiferente. Fui atingida por uma onda de apatia. A questão deixou de me fazer sentido. Posso ir por aqui. Também posso ir por ali. Mas na verdade tanto faz.

4 comentários:

Moon disse...

"E lentamente habituei-me às ruínas."

cara, me identifiquei muito com seu texto. mto foda mesmo ;D

J disse...

A indiferença dos caminhos, pode resultar em surpresas do mundo que nos rodeia. A indiferença pode inundar-nos, mas nunca é para sempre. O envolvente apenas está calmo, ou o bulício é apenas um silêncio que não queremos ouvir. Um dia, um toque acorda-nos, e compreendemos que estamos a sonhar. Saimos de um estado de letargia que não se compreende, mas sente-se.

Anónimo disse...

Em determinado momento na vida,
parece está tudo acabado.
Olha-se, de um lado para outro,
só ver porta fechada.o desanimo toma conta do seu ser.
Parece ficar tudo escuro ao seu
redor.
Você fraqueja quer desistir de
lutar pela sua vida.E quando tudo parece não ter mais jeito. Aparece alguém para te a mão!
E tudo aquilo que parece não ter solução,ver-se uma saída.
Comparado a uma planta sem cuidados.
Se não regar murcha, e aos poucos: cai suas folhas, seca seus galhos e desfalece.
Mas se alguém retomar aos cuidados,mesmo estando
desfalecida.Ela retorna a vida.

conclusão:por mais difícil
que esteja a vida. não desista
de lutar. pois a vida é sempre bela.
mesmo estando no fundo do posso.

Cláudia Rodrigues (sim, sou eu mesma) disse...

Vim cá ter por intermédio do Telmo N. Gostei muito de cá estar. Parabéns. Continua.