07 agosto 2008

Passo em falso


Sempre gostei de desafios. De testar os limites. Descobrir até onde sou capaz de ir. Aliás, não existe melhor maneira de me convencerem a fazer alguma coisa que dizendo: “duvido que sejas capaz!”. Gosto que me provoquem. Que me aticem a curiosidade e me obriguem a ultrapassar fronteiras. Que me mostrem que sou mais que aquela imagem que o espelho me devolve.

Não gosto de deixar nada a meio. Incompleto. Quando meto uma coisa na cabeça vou até ao fim…mesmo que às tantas já não me faça sentido. Prefiro ter de regressar de mãos a abanar, mas com a certeza de conhecer o fim de cada trilho. Não consigo aceitar a palavra desistir, não me faz sentido. Como é possível que, de um dia para o outro, deitemos por terra os nossos sonhos?

Gosto de ser verdadeira. Autêntica. Mesmo que por vezes isso me saia caro. Sei que consigo esconder muito bem aquilo que sinto e, quando necessário, consigo facilmente fazer com que acreditem nas personagens que crio. Mas uma das coisas que mais odeio é a hipocrisia. Quem me conhece sabe que nem sempre tenho palavras doces para lhes oferecer…mas sabem também que não tenho palavras vazias. Posso ser dura nas minhas criticas, mas nunca serei falsa. Opto muitas vezes pelo silêncio, mas apenas para não ter de fingir.

Nunca gostei de deixar pontas soltas. Gosto de ter tudo organizado – pode mesmo dizer-se que é uma obsessão. Para mim as ideias são como pontos perdidos num mapa. Mas sempre ligadas por fios condutores…para que não se percam. Não tenho descanso enquanto não consigo pôr cada coisa no seu lugar. Para que me faça sentido. Infelizmente tudo para mim tem de ser lógico. Custa-me aceitar o “porque sim”.

Ensinaram-me que os problemas que nos surgem devem ser resolvidos, ao invés de apenas contornados. E, por isso, custa-me quando tenho de deixar algo por resolver. Ou quando ficam palavras por dizer. Tenho necessidade de deitar cá para fora o que sinto, na esperança que isso me traga, finalmente, algum descanso. Que me permita escolher um caminho.

Sou cautelosa, mas não suporto dúvidas. Gosto de calcular ao detalhe cada movimento, mas não resisto à curiosidade por muito tempo. Sei que só tenho a perder por não ser mais paciente, mas mesmo assim resolvi arriscar. Precisava urgentemente de virar esta página. De saber o que vinha a seguir. Já há alguns meses que planeava este passo, com a serenidade de quem tem toda a vida pela frente...mas com igual necessidade de conhecer os resultados. Tinha de me testar, para saber se resistia. Só assim poderia passar à próxima etapa.

…mas esta prova eu não consegui superar. Os planos falharam. Inesperadamente fiquei sem forças. Os segredos que levava comigo não bastaram para me manter firme. Afinal o vento foi mais forte do que esperava. À minha frente vi desabar as cartas com que tinha construído o meu frágil castelo. No ar ficou apenas uma poeira que ainda me impede de ver com clareza o que terá falhado. Resta a certeza amarga de que em mim há ainda muita coisa por resolver.

4 comentários:

angel_of _dust disse...

... que dizer, quando as palavras não são suficientes? que fazer, se não existem actos que possam colar os cacos de um vaso precioso?

mesmo assim, ajuda oferece-se - na esperança de ajudar

c. disse...

...a tua ajuda tem sido preciosa neste longo processo ;) mesmo que o vaso não volte a ser o mesmo, pode ser que ganhe novas formas ;)

angel_of _dust disse...

... e cada forma que o vaso ganhar, novas areias de praias distantes ou próximas aparecerão para o encher. e pelo meio, estórias de búzios e estrelas cadentes, paraísos à beira da estrada, serras sombrias onde nos podemos perder. que não existem vasos suficientes para saciar a nossa fome de ilusão.

c. disse...

...em todos os contornos ficam as marcas deixadas pelos sonhos vividos, pelas ilusões a que demos vida e que deixámos respirar. Felizmente este vaso continua em mutação...mas também não nos faltam novas aventuras para viver, não é?

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