23 junho 2008

Adeus


Todas as manhãs acordava com a sua voz. Seguia-se um beijo terno na testa, como se de um ritual se tratasse. Em poucos minutos voltava a entrar no quarto com um prato de Maizena com ovo. Depois de me vestir encontrávamo-nos na marquise onde deixava que me penteasse, desenhando longas tranças no meus cabelos, que enfeitava todos os dias com uma fita de cor diferente, para que condissesse com o vestido. Lembro-me de passearmos juntas rua abaixo, de irmos para a escola de mão dada. Recordo a lancheira sempre preparada ao detalhe para que nada me faltasse. Era com a sua ajuda que fazia os trabalhos de casa. Na minha memória ficou a forma como se deixava deslumbrar a cada palavra nova que eu lia. Todas as sextas-feiras fazíamos lanches às escondidas e deliciávamo-nos com bolos cheios de chantily. Era a nossa tarde livre em que nos entretínhamos a preencher as cadernetas com os novos cromos. Aos fins-de-semana íamos para o estádio fazer piqueniques. No farnel salada de bacalhau cru e limonada fresquinha. Toda a tarde era passada a balouçar na rede enquanto jogávamos à bisca de sete. De vez em quando fazíamos serão. Ela sentava-se à máquina de costura e eu ficava muito atenta a seu lado enquanto a ouvia contar-me as suas aventuras. Falava-me de como veio sozinha para a cidade, deixando para trás a sua pequena aldeia Alentejana. Segredou-me as histórias que por lá viveu e os nomes de todos com quem se cruzou por lá. Ensinou-me a nunca deixar de lutar pelos meus sonhos, mesmo que para isso tenha de andar muitas vezes sozinha. Relatou-me vezes sem conta, com detalhe, como foram as suas aventuras passadas em Santa Maria...tendo deixado em mim uma paixão por hospitais que me trouxe até aqui. Ficarão para sempre as suas lições de vida - e de coragem - que germinaram em mim como pequenas sementes, alimentadas durante anos com o seu carinho e dedicação. Ficará sempre a recordação daquela que esteve sempre disponível para um qualquer reconforto, disposta a dar sempre mais sem pedir nada em troca, pronta para partilhar comigo toda a sua sabedoria, fazendo-me crescer.Sempre que me olhar no espelho ela estará comigo, como uma sombra que me abraça, como um escudo que me protege...como uma luz que não se vê mas que ilumina sempre os meus dias.

Há muito que esperava a sua partida mas, mesmo assim, não consigo evitar o estremecer das minhas já muito frágeis estruturas. O meu mundo continua a tremer interminavelmente e, a cada abalo, parece mais dificil manter-me de pé. Hoje, enquanto me preparo para o último adeus àquela que foi a responsável por quem sou, agarro-me, com todas as minhas forças, às últimas palavras que me disse, que recordo como se fossem a mais bela melodia que alguma vez ouvi...



2 comentários:

Paulo Girão disse...

Ola Catarina,

Està tudo bem contigo? O post que escrevestes deixou-me procupado. A impressão com que fiquei foi a de que alguém próximo na familia ou círculo de amigos morreu ou partiu para longe.

Espero que esteja tudo bem contigo.
Abraco
:-)
Paulo

NoZ disse...

*hug*