05 março 2008

Fora de serviço

Lisboa - Julho de 2007

De há uns tempos para cá, a minha vida desenrola-se lentamente, num ritual monótono, como se fosse um elevador, daqueles velhinhos e ferrugentos, que passam os dias num vai-vem arrastado entre dois pontos distantes.

Daqueles que, a cada subida, parecem desmanchar-se em peças, esforçando-se para cumprir o seu dever e por continuar a mostrar as belas vistas, no topo da colina.

Daqueles que, ao descer, parecem simplesmente deslizar sem qualquer controlo, dando a sensação de que se irão despenhar, sem que se aproveite uma única peça.

Daqueles que lutam, diariamente, contra os efeitos da erosão deixados nos carris, contra as marcas irreparáveis deixadas pelos passageiros.

Daqueles que albergam sempre mais um turista, de máquina fotográfica ao ombro, em busca de novas paisagens. Esperando sempre que os seus pesos o ajudem a manter-se no trilho certo, até ao cimo.

Turistas que partem, com a mesma facilidade com que chegaram, mas levando consigo as recordações da viagem...para mais tarde recordarem, nos seus países cinzentos.


Pois bem...o meu elevador avariou, fico parado lá no fundo, sem forças para voltar a subir. Parece que, desta vez, não há mecânico que lhe valha, as peças, moídas pelo uso, já não se fabricam e não há arranjo possível. Ficou fora de serviço. Por tempo indeterminado. Até que alguém seja capaz de o puxar novamente para cima...


10 comentários:

Dinesh disse...

Doeu-me a alma.
A resposta não pode ser por escrito.


*****

C. disse...

desculpa...não queria magoar ninguém. apenas soltar uma parte da dor. tu sabes que, apesar de ir libertando pequenas partículas a cada dia, ela continua a acumular-se cá no fundo.
fico à tua espera...e do teu abraço ***

Bruno Miguel Pinto disse...

"Moídas de serviço"? "Não há arranjo possível?". Não quero soar paternalista, mas aos 26 anos? Rapariga, o ser humano é muito resiliente, dá tempo ao tempo, pede ajuda aos mecânicos-amigos que aparecerem e pensa positivo! Força, camarada! A luta continua! A luta continua!

C. disse...

caro bruno, há alturas em que os mecânicos-amigos, por muito bons mecânicos que sejam, não conseguem fazer muito...quando falta a matéria prima é difícil conseguir um arranjo como deve ser. Vão desenrascando mas, eventualmente, o problema acaba por surgir outra vez. Ou seja, de vez em quando é possível voltar ao topo da colina, ver as vistas de outra perspectiva….mas depois as peças acabam por ceder outra vez e lá vou eu por ali abaixo.

De qualquer forma obrigada...miss you ***

p.s: olha lá camarada, não andas a abusar da cena vermelha?!?

Bruno Miguel Pinto disse...

Abusar da cena vermelha? Não, camarada! Desde que estive no Avante que trago impregnado este discurso característico dos camaradas, camarada! Força, camarada! Diz não à opressão do Grande Capital e abraça os teus irmãos trabalhadores!

inês disse...

obrigada por todos os mapas do tesouro, que o proximo me leve a ti. adoro-te*

C. disse...

tens razão camarada...aquilo fica-nos no sangue lol ou pelo menos na ideia ;) ainda tenho pesadelos com aquela música!!!
***

C. disse...

inês...os meus mapas do tesouro só existem porque tenho com as partilhar ;) de que vale ter um tesouro se não o partilharmos, com aqueles de quem mais gostamos?

p.s.: em breve matamos a saudades todas, com um mono-abraço do tamanho do mundo ;) ***

Paulo Girão disse...

Ola!

O teu post descreve de uma forma muito poética um sentimento de vazio que muitos de nós enfrentamos de vez em quando. Obrigado pelo post e espero que te sintas melhor agora.

Abracos
:-)
Paulo

C. disse...

Olá Paulo ;)
bem-vindo ao meu T0 na net...espero que te sintas confortável por aqui!

sim, estes sentimentos de vazio, que fazem parte do processo de crescimento, vão sendo alternados com outros mais agradáveis...pena que não seja possível estarmos sempre lá no topo e que, por vezes, seja necessário descer até ao fundo para ganharmos novas forças!

Até breve ;)
***