21 janeiro 2008

O guardador da ilha

Há homens com quem se pode aprender a ver aquilo que dentro de nós existe e não sabíamos.

Reconhecêmo-los pelo olhar. Quando se aproximam, a noite reflecte-se clara nos seus rostos. Têm gestos lentos, precisos, como os dos deuses marinhos que habitaram, além, no mar rente à ilha.

Às vezes, quando à hora do calor durmo debaixo de uma árvore, aparecem-me em sonhos. Contam que são homens de passagem. Não pertencem a lugar nenhum e, raramente, pernoitam duas vezes de seguida no mesmo sítio. São homens errantes, muito antigos. Deslocam-se como se fossem sombras. Transportam no coração a euforia de quem viaja.

Uma noite, conheci um desses homens e toquei-lhe. Veja a queimadura que me deixou nos dedos. Está a ver?

Por isso não saio daqui. Guardo e vigio a ilha – como se ela precisasse do meu olhar para se manter um ser vivo.

Passo os dias dizendo, em voz alta, os nomes das plantas e dos animais, assim…como se rezasse. E, uma noite, do fundo marinho da ilha virá outro homem, ou um deus, para me ensinar mais coisas sobre estas terras.

Vivo nesta charneca que se estende da Cabeça da Cabra até ao mar. Olho fixamente a ilha, mesmo durante a noite, quando ela tem o perfil duma cabeça deitada sobre as águas. Deixo a vida escoar-se ao ritmo das migrações das aves. E ao fim de muitos anos descobri que a ilha é um lugar que cresceu, misteriosamente, dentro de mim. O meu corpo transformou-se em ilha. Olho a ilha, sou a ilha.

Mas não te quero demorar mais. Se quiseres, antes de seguires viagem, ensino-te os nomes dos animais. E se me deres a tua mão, queimar-te-ei os dedos, exactamente como queimaram os meus. Depois, poderás partir por essa linha litoral traçada pelo fogo sobre a pele.

Al Berto, O Anjo Mudo

8 comentários:

angel_of _dust disse...

regra para se conhecer bem uma ilha - por dentro, e não de longe:

o guardador precisa de companhia. mesmo que apenas de passagem, esse híbrido de anjo e homem precisa que o belisquem, para que sinta dor do sangue. que lhe mordam a boca para sentir o gosto do sangue. precisa precisa de sorrisos, para que os seus olhos não se percam no vazio.

se virem um guardador de ilhas, digam-lhe olá, ele vai gostar. ahh, e onde há um guardador estará certamente alguma pastorinha a passear sonhos tenros e da cor de mar. de certeza...

p.s. bonita imagem - familiar ;)

DanielaCoutinho disse...

Al Berto parte-me o coração, mas refaz-mo sempre. Gosto do teu blog, fico aqui a espreitar da minha janela.
Beijinho de uma semi conhecida ;)

j. disse...

voa, minha Catarina..Voa..

*

C. disse...

angel_of_dust:
se fazer companhia ao guardador, alimentado-lhe a alma e desenhando sorrisos, é a única regra para conhecer a ilha por dentro então será fácil traçar-lhe os mapas. de certeza...

p.s. a imagem é uma recordação da queimadura deixada pelo homem de gestos lentos e precisos em cujo rosto se reflecte a noite ;)

C. disse...

semi-conhecida:
a mim aquece-me o coração ;)
gosto de te ter aqui...porque juntando os "semi-conhecidos" com um líquido quente é mais fácil organizar o nosso passado, embrulhá-lo e fechá-lo numa gaveta :D Obrigada!

C. disse...

J.:
sim, minha aprendiz ;) tentarei não te desiludir. Ou pelo menos não me desiludir a mim...

angel_of _dust disse...

sim, o guardador precisa de sorrisos. e de trocar o calor pelo frio a quem a isso se dispuser. o guardador gosta, principalmente, de sorrisos ternos e envergonhados.

e quanto à ilha - bem, para se fazer um mapa adquado é parecido visitá-la várias vezes, e aprender as suas marés. e as suas mutações - a ilha assume muitas formas e muitos nomes. mas para encontrar uma adequada baste ter os olhos verdes (ou cinzentos) bem abertos, e um sorriso nos lábios.

C. disse...

angel_of_dust:
fico então a guardar esta ilha, dia e noite, percorrendo-lhe cada recanto para que se mantenha viva e me seja possível, um dia, traçar-lhe os mapas. E, enquanto espero pela próxima visita do homem de olhar terno com mãos pequenas (mas grandes...)repetirei a cada instante (em voz baixa para que ninguém me ouça)os detalhes que dela trouxe para que nada me escape. as palavras, os ecos , os odores e sabores que ficaram dessa ultima viagem.
Até já ;)