1# o bom de estar de férias é...


ter horas de sobra para pôr a escrita em dia :)


(ainda a aceitar inscrições para postais na caixinha das mensagens)

a caminho


"A vida é o que fazemos dela.
As viagens são os viajantes. 
O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos"


É chegado o dia em que partimos. Fazemos as malas e vamos à aventura. Não interessa para o caso a distância que nos separa de casa. É a mais a necessidade de partir. De fechar a porta que nos recebe todos os dias. O desligar das rotinas. A busca por algo novo. Que nos desperte os sentidos. Ou nos adormeça as dores. Viajar não é mais que um reencontro. A eterna descoberta do eu que teima em esconder-se na passagem dos dias. Todos iguais. Muitos deles cinzentos. Como se insistisse em ver diariamente o mesmo filme, já sem cor, e cujo final nada traz de novo. Mas partir traz-nos de volta a esperança. A crença de podermos enfim quebrar as amarras. Deixar para trás aquilo de que não precisamos. Levar na bagagem apenas o que nos aquece o coração. As músicas que há muito deixámos de ouvir. Os livros que não temos tempo de ler. Os blocos de notas – novos em folha – cuja estreia fomos adiando. O papel das cartas que nunca mais escrevemos. As moradas dos amigos que se colaram ao peito mas para os quais nem sempre encontramos as palavras certas. No momento em que lhes é devido. Viajar para mim é também isto. Pagar dívidas eternas àqueles de quem mais gosto. E lembrar-me daquilo que me faz falta. Ou de quem me faz falta. E lembrar-me de mim. Perceber que há muito demasiado tempo me esqueci de olhar aqui para dentro. Para o local onde guardo os sonhos. A caxinha onde escondo tudo aquilo que gostava de ter sido mas não tive (ainda) coragem. Vajar é parar um instante (vários instantes!) e (re)orientar a rota. Passou tanto tempo desde a última paragem que tenho dificuldade em saber sequer onde estou. Ou quem sou. Há muito que me voltei a perder e procuro agora novos atalhos para o meu destino. Haverá tempo, dizem-me, e isso chega-me para acreditar hei-de lá chegar.

(aqui) estou em casa


Chamaste-me e eu vim. Voltei a casa. Ao local onde guardei para sempre os meus tesouros. A salvo do mundo lá fora. Da erosão dos dias. Do cansaço das rotinas. Sabe-me a casa de férias. Aquele espaço pelo qual suspiramos  todo o ano. Ou toda a vida. E do qual só guardamos boas memórias. Onde o tempo parece parar. Aqui os dias são mais longos. Faz sempre sol (mesmo em dias de chuva). As noites são quentes e no céu há sempre estrelas cadentes. Sabemos que a cada regresso tudo estará no devido lugar onde o deixámos. Quer tenhamos partido há um mês ou há seis anos. Ao reabrir a porta reconhecemos os perfumes gravados na memória olfactiva. Espalhados pela casa encontramos os nossos livros preferidos. Aqueles que nos servem de guia mas que já não consultamos há demasiado tempo. No gira discos está ainda o nosso álbum favorito. Mesmo a pedir mais uma voltinha, como quem promete uma viagem para outro universo. Nas prateleiras há uma colecção dos filmes que insistem em roubar-nos lágrimas. E aos quais nunca conseguimos resistir rever. Na esperança talvez de um final diferente. Ou apenas para nos permitirmos sonhar mais uma vez que temos aquela coragem de arriscar. Como os nossos heróis. Na gaveta encontramos os álbuns de fotografias. Imagens que a nossa memória insiste em reproduzir a cores mais vividas. Como se tivessem sido tiradas ontem. Sempre gostei deste termo. Tirar fotografias. Como se a película nos roubasse aquele instante. Ou o tirasse  desta dimensão para o guardar noutro mundo. Onde nada se perde. Como os planos que traçamos naqueles mapas guardados no móvel da entrada. E que ali ficaram à espera de uma próxima visita. De um regresso para novas aventuras. Na mesa de cabeceira encontro o meu velho caderno de notas com rascunhos do que ficou por dizer. Mesmo ao lado está um bloco de capa preta, rabiscado por crianças, e cujas páginas guardam ainda o sal da praia no Inverno. Sim, porque nesta casa não é sempre Verão, apesar de se encontrarem vestígios de areia entre os lençóis. E um pequeno búzio pousado na almofada. Como quem procura escutar as palavras que há tanto tempo se calaram. Sento-me no chão e vou abrindo os baús de recordações. Caixas de sorrisos à espera de serem (re)desenhados. Vou sacudindo as poeiras. Com uma sensação de paz quase desconhecida. Ou há muito esquecida. Como quem tem aqui tudo aquilo que precisa. Como quem finalmente se encontra.
Estou em casa.



Há palavras que requerem uma pausa e silêncio




Ponho o ouvido à escuta de encontro ao mundo:
ouço-me para dentro. Mal posso
dar no mundo um passo
sem tremer: sinto-me
balouçado num sonho imenso, ando
nas pontas dos pés.
                                E estou só e a noite.


Herberto Helder



(e há vidas que requerem ser perdidas aos poucos, como quem nunca
 chegará a partir) 

na bagagem #7


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro





coisas que aprendes com mais uma mudança #1


Sabes que estás uma pessoa crescida quando no teu top de preocupações
está a planificação da nova cozinha :)


(...e esta mania de no século XIX não fazerem as casas com medidas standard?) 

DRD4-7R



Afinal há explicação para este bicho carpinteiro que me faz ansiar por novas viagens todos os dias.



...ai Novembro que estás tão longe!


ponto de situação


Há sempre - pelo menos - dois lados, Duas perspectivas. Podem sempre ver-se as coisas segundo prismas diferentes. Se é verdade que deixei de ter tempos mortos desde que comecei o desafio A Month of Letters, também é verdade que a minha caixa de correio não voltou a estar vazia. Todos os dias chegam cartas e postais, vindos de todos os cantos do mundo. E também todos os dias continuam a chegar novos endereços para a lista dos envios. Fevereiro está a acabar mas estou longe de ter conseguido responder a todos os pedidos. Afinal de contas são apenas 28 dias, tempo curto para conseguir usar todas as palavras que tenho cá dentro. Muito poucos dias para poder responder às dezenas de cartas que me têm chegado às mãos. Assim sendo, decido-me a fazer o que já previa: o desafio será prolongado! Aquilo que era um mês de cartas passará a ser o uma carta por dia - enquanto me apetecer! E sim, cheira-me que em breve irá nascer daqui um novo projeto mas isso... será só lá mais para a frente :)


p.s.: entretanto continua aberta a lista de inscrições (por mensagem ou aqui)


porto de abrigo #1


Cinco anos, quatros casas. Tudo começou aqui, ou naquele segundo em que me apaixonei por aquela vista. Ali percebi porque estarei para sempre presa a esta cidade. Foram meses que passaram a correr. Sempre de casa cheia. Sempre de coração cheio. Olhando para trás percebo que pouco aproveitei o privilégio daquela morada. Passado um ano lá ia eu, escada abaixo, escada acima. toca a arrumar a tralha e a trocar de bairro. Deixei o meu monte e rumei à casa de bonecas que me acolheu por mais dois anos. Até ser tempo de procurar algo maior. Uma casa mais a sério. Mas ainda (sempre?) com aquela nostalgia da vista que perdi. Sempre aquela mágoa por não poder, em casa, perder o olhar no horizonte. Até que agora, mais dois anos passados, entrei nesta sala e me perdi no meu Tejo que corre lá fora. E nas paredes vazias à espera de serem habitadas com memórias. E nestas portadas que enchem de luz esta casa que pede para ser vivida. E isso é quanto baste para voltar a pôr toda a vida em caixotes, rumo ao novo espaço a que vou - muito em breve - chamar lar.

    Ninguém nunca pensou no que há para além
    Do rio da minha aldeia.

    O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
    Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

       Alberto Caeiro

tenho coisas no correio #10


"partida, lagarta, fugida"

O postal perfeito para chegar no dia em que comecei o desafio "A Month of Letters 2015". A primeira carta já seguiu no correio, direitinha para Budapeste, e a lista de endereços para os dias seguintes também já está bem preenchida. Obrigada aos que me deixaram as moradas no formulário :) prometo que durante este mês terão noticias minhas!
(assim queiram os CTT...)

p.s.: e sim, ainda aceito mais inscrições aqui :)



A month of letters


A proposta é simples: durante um mês escrever uma carta por dia. Parece fácil mas não é. Não vale apenas escrever 30 cartas (neste caso 28, por estarmos em Fevereiro) e enfiar tudo no correio do fim do mês. O desafio é ir até à caixa do correio todos os dias, depositar uma carta escrita à mão e acreditar que a carta chegará ao destinatário. 

Ando a organizar a lista de moradas e tenho um problema: faltam-me endereços para enviar as minhas cartas! Lembrei-me então que podia deixar aqui um pedido, como quem pede ajuda para cumprir o desafio: quem gostaria de receber uma carta no correio? 

Se quiserem ajudar-me basta deixarem o vosso endereço aqui e terei muito gosto em fazer-vos chegar uma carta escrita à mão :)

(Para pedidos personalizados de cartas também podem enviar-me os dados por e-mail)

Cheira-me que - com sorte - sou capaz de repetir isto no próximo mês.

na bagagem #6

de volta à primavera. 

(regressada das férias no país do frio)

qualquer dia serve



“Life should not be a journey to the grave
with the intention of arriving safely in a pretty and well preserved body,
but rather to skid in broadside in a cloud of smoke,
thoroughly used up, totally worn out, and loudly proclaiming
"Wow! What a Ride!”


Hunter S. Thompson
(descaradamente roubado daqui)



(amanhã) já passou



Não quis guardá-lo para mim
E com a dimensão da dor
Legitimar o fim
Eu dei
Mas foi para mostrar
Não havendo amor de volta
Nada impede a fonte de secar
Mas tanto pior
E quem sou eu para te ensinar agora
A ver o lado claro de um dia mau

Eu sei
A tua vida foi
Marcada pela dor de não saber aonde dói
Mas vê bem
Não houve à luz do dia
Quem não tenha provado
O travo amargo da melancolia
E então rapaz então porquê a raiva
Se a culpa não é minha
Serão efeitos secundários da poesia

Mas para quê gastar o meu tempo
A ver se aperto a tua mão
Eu tenho andado a pensar em nós
Já que os teus pés não descolam do chão
Dizes que eu dou só por gostar
Pois vou dar-te a provar
O travo amargo da solidão



Ornatos Violeta



interiores #8


A verdade é que quase nunca sabemos responder às dúvidas que surgem no caminho. Há sempre duas hipóteses: arriscar ou passar a vez. O passado - esse que insiste em tirar-me o sono - ensinou-me a custo que mais vale arriscar. Jogar pelo seguro não me leva a nenhum lado. Ficar à espera só serve de frustração pelo tempo perdido. Passar a vez é garantia de uma vida a matutar no "e se..." que tanto me agonia. Quando não se tem nada a perder é muito mais fácil arriscar. Apostar tudo na resposta que não temos como certa mas, por segundos, nos garante o jackpot. Ou nos deixa sonhar. Acreditar que desta vez vamos escolher o caminho certo. Permitir-nos voltar a sentir a adrenalina de quem aceita os desafios. Há quem lhe chame imaturidade. Ou irresponsabilidade. Vejo os olhos de censura que dizem mais vale jogar pelo seguro.  E deve ser verdade, para quem tenha os pés no chão. Eu prefiro chamar viver a este eterno arriscar. No fim do dia o que me resta é este constante aceitar que quase nunca escolho o caminho certo. Os anos somam-se neste eterno processo de tentativa e erro. Mas o que levamos da vida são as tentativas. Os recomeços. As apostas cegas, sem garantias de retorno. Os riscos que corro e me lembram - todos os dias - que ainda estou viva. E no final, contas feitas aos resultados, chega a hora das desistências. Do assumir as más escolhas. Dos erros. E aceitar finalmente que este foi só um dia mau e amanhã (ou depois) chegará novamente o tempo de arriscar.




desejos no papel #5


e (re)aprender as coisas mais simples:

“The secret of flight is this - you have to do it immediately, before your body realizes it is defying the laws.”

M. Cunningham - A Home at the End of the World

desejos no papel #4

- deixar-me deslumbrar com os detalhes - 

(ou como é possível passar aqui cinco anos e nunca ter reparado nesta vista?)

desejos no papel #3

- um destes no correio por cada dia do ano - 


(é um desejo ambicioso, em 20114 foram só 114, mas aceito contributos generosos)