vidas alternativas #8

O que a fascinava era o eterno jogo do toca e foge. o poder de cada movimento. de cada palavra. ou cada silêncio. sentir o desencadear da reacção no outro. conseguir prever o acelerar da pulsação. como se isso lhe garantisse algum poder. como se lhe garantisse o controlo da situação. gostava de provocar. admitia-o. quase tanto como de ser provocada. era isso que a estimulava. o constante testar dos seus limites. ser forçada a manter a sensatez apesar do constante xeque. alimentar a dança no tabuleiro. como se assim garantisse a atenção. como se pudesse assegurar o protagonismo. pelo menos enquanto mantivesse a postura. enquanto fosse ela a dominar a jogada. a controlar o outro. enquanto fosse ela a ditar as regras. até que a sorte lhe trocou as voltas trazendo-lhe um adversário audaz e experiente. disposto a jogar às cegas. já sem medo de perder. que lhe garantia ser invencível. que lhe desenhou novas fronteiras, muito para lá do que julgava razoável. mostrou-lhe um novo universo de fantasias. alimentou-lhe o ego mesmo em cada derrota, ensinando-lhe que neste campeonato o melhor troféu é perder o controlo. explicou-lhe que as melhores vitórias são as que surgem subtilmente no ultimo movimento. naquele instante ínfimo em que o outro já se dava por vencedor. nunca tinha dançado com ninguém assim. estimulava-a o desafio de lhe assistir a cada jogada. de não o deixar levar a melhor garantindo um combate renhido. mas assustava-a a ideia de - talvez pela primeira vez - sentir que não estaria à altura. esta partida ditaria o final da sua carreira de pleasure delayer.